O padre Patrick Fernandes na CPI das Bets

O padre e influenciador Patrick Fernandes pode estar na CPI das Bets, um nome inusitado no debate sobre apostas online.

O limite entre moral religiosa e política pública

A Comissão Parlamentar de Inquérito que investiga o mercado de apostas online no Brasil poderá, nos próximos dias, ouvir um nome incomum entre os influenciadores digitais que protagonizam a CPI das Bets: o padre e criador de conteúdo Patrick Fernandes.

Conhecido por seu alcance nas redes e por recusar abertamente parcerias com casas de apostas, Patrick se ofereceu espontaneamente para depor e teve seu convite formalizado pela senadora Soraya Thronicke (Podemos-MS).

Mas sua possível participação na CPI levanta uma pergunta incômoda: qual o limite entre o testemunho social e o discurso moral religioso no processo de formulação de políticas públicas?

O Brasil é um Estado laico. E isso exige cautela quando representantes religiosos entram na arena institucional para opinar sobre setores econômicos legalizados — como é o caso das apostas esportivas desde a promulgação da Lei nº 14.790/2023.

Requerimento da senadora Soraya Thronicke convidando o Pe. Patrick Fernandes para a CPI das Bets

Fé, influência e discurso moral

O padre Patrick tem mais de 6,6 milhões de seguidores e uma presença consolidada nas redes sociais. Não usa esse alcance para fazer publicidade de jogos.

Pelo contrário: denuncia sistematicamente o impacto destrutivo que diz testemunhar em sua paróquia, no Pará, como resultado do vício em apostas. Diz receber ofertas comerciais do setor todos os dias — e recusar todas.

Em vídeo publicado no TikTok, Patrick afirmou:

“A CPI também precisa ouvir quem tem a dignidade de não aceitar dinheiro de apostas.”

A frase viralizou. E, em resposta, a senadora Soraya apresentou requerimento oficial para que ele compareça à CPI.

Mas o que essa fala carrega é mais do que uma denúncia social. É também um juízo de valor sobre o comportamento de outros influenciadores, usuários e empresas.

E isso importa — porque quando um padre se posiciona publicamente sobre um tema que envolve legislação, regulação econômica e liberdade de expressão comercial, o risco é que a política pública seja contaminada pela moral religiosa.

O discurso de Patrick é compreensível dentro de sua missão pastoral. Mas quando esse discurso entra no Congresso Nacional, é preciso que ele seja filtrado por um critério técnico, e não por princípios religiosos.

Apostas esportivas, slots e bingos são hoje atividades legalizadas. Possuem um marco regulatório recente, autorizado pelo próprio Legislativo. Não são atividades moralmente aprovadas ou reprovadas — são serviços sujeitos a regulação.

Portanto, quando o depoimento de um padre é usado como argumento político, o risco é que o debate escape do campo da proteção ao consumidor e escorregue para a retórica do “certo e errado” — ou pior, para a ideia de que apostar é “pecado”, e quem anuncia apostas é pecador.

Entre fé e performance: o que está por trás do vídeo

O vídeo em que o padre Patrick aparece se oferecendo para depor na CPI das Bets foi