Saldo fake, contas demo, contrato obscuro
Rico Melquiades depõe na CPI das Apostas, nega usar conta demo, admite saber o que é e levanta nova polêmica no debate.
O que são as tais “contas demo” que apareceram na CPI das Apostas
Nesta quarta-feira, o influenciador Rico Melquiades prestou depoimento à CPI das Apostas.
Ao ser questionado sobre o uso de contas "demo", negou tê-las usado, mas admitiu saber o que são.
E isso levantou uma dúvida importante: o que exatamente é uma conta demo? E por que isso é um problema?
Contas demo são acessos fornecidos por plataformas de apostas a influenciadores, para que eles joguem em vídeos e transmissões com saldo fictício, sem arriscar o próprio dinheiro.
Na prática, trata-se de uma “banca fake”, com valores visíveis na tela, mas que não representam um jogo real.
Esse tipo de conta permite que o influenciador mostre os jogos ao público com liberdade — mas quando esse conteúdo é editado para mostrar só vitórias, ou não deixa claro que o saldo é simulado, isso pode ser interpretado como propaganda enganosa.
Do ponto de vista jurídico, o uso de contas demo ainda não é regulamentado no Brasil.
A Lei 14.790/2023 que legaliza o iGaming fala de regras de publicidade e responsabilidade, mas não detalha esse tipo de prática.
No entanto, isso não significa que tudo é permitido. Se o influenciador ou a plataforma induzirem o público ao erro — fazendo parecer que os ganhos são reais, ou omitindo que se trata de uma simulação — isso pode ser enquadrado como violação do Código de Defesa do Consumidor.
Resumindo: não é exatamente proibido, mas pode ser questionável — e até ilegal — dependendo de como for feito.
Como funcionam os contratos com influenciadores?
Os modelos variam bastante. Mas em linhas gerais, os contratos mais comuns incluem:
O influenciador recebe um valor para fazer publicações, menções ou vídeos, independentemente do número de jogadores convertidos.
O influenciador ganha uma porcentagem do que os jogadores que ele indicou gastam na plataforma. Em muitos casos, essa comissão é vitalícia.
Recebe um valor fixo para cada novo jogador que se cadastra e faz o primeiro depósito.
Alguns contratos incluem premiações adicionais caso o influenciador bata metas de lucratividade para a plataforma.
É aqui que surgem as polêmicas sobre a chamada “cláusula da desgraça alheia”: uma suposta prática em que o influenciador ganharia mais conforme os jogadores perdem mais. Isso não é regra, mas a falta de transparência deixa brechas para abusos.
Nesse modelo, o influenciador recebe um valor em saldo real (via Pix ou carteira interna) para jogar ao vivo — e precisa cumprir uma quantidade mínima de lives ou horas.
Ao final, ele pode reter uma parte dos ganhos gerados com aquele saldo, como comissão. É um formato híbrido: o saldo é real, mas o risco é compartilhado, e a performance entra como parte do acordo.