Renda disponível, juros abusivos e o teatro moral contra as apostas

Enquanto apostas viram vilãs de R$ 20, bancos e varejo seguem cobrando juros abusivos de 300% ao ano — com tapinha nas costas da imprensa.

Enquanto apostas viram vilãs de R$ 20, bancos e varejo seguem cobrando juros abusivos de 300% ao ano — com tapinha nas costas da imprensa.

De um lado, uma indústria recém-regulada, cheia de problemas e ainda longe do ideal. De outro, um sistema financeiro consolidado, blindado por décadas de lobby e conivência institucional. No meio disso, surge o teatro moral da vez: proteger o brasileiro do "perigo das apostas".

Atores? Os mesmos que vendem fogão em 36 vezes com juros embutidos e depois te cobram R$ 200 de atraso por uma fatura de R$ 800.

A ironia não poderia ser mais escancarada: o país com um dos sistemas de crédito mais predatórios do planeta resolveu que agora é hora de dar lição de moral — justo nas apostas, que ao menos admitem o risco de perder.

Crédito para consumir, culpa para jogar

Vamos aos números que escancaram o paradoxo.

Em 2023, o Brasil registrou um spread bancário de 31,5%, segundo dados compilados pelo World Bank Group com base em informações do FMI — a terceira maior taxa do mundo, atrás apenas de Madagascar e Zimbábue. Esse índice, que representa a diferença entre o que os bancos pagam a quem deposita e o que cobram de quem toma crédito, é um dos mais perversos da economia brasileira (fonte: artigo de Fernando Vieira no JOTA.info e BNLData).

Ou seja: o brasileiro é penalizado em dobro. Recebe pouco quando poupa. Paga muito quando precisa. E isso é vendido como normal.

Enquanto isso, o mesmo brasileiro que é incentivado — por publicidade, algoritmos e metas agressivas de consumo — a parcelar celular em 24 vezes ou renovar o guarda-roupa com limite pré-aprovado, vira alvo de julgamento público quando resolve apostar R$ 20 numa partida do seu time.

A reação institucional é conhecida: Se ele perde no jogo, foi imprudente. Se ele afunda no rotativo do cartão, só faltou “educação financeira”.

A hipocrisia está no tratamento. O problema nunca é o sistema que oferece crédito a juros extorsivos, mas o indivíduo que “não soube usar”. Já com as apostas, o risco é visto como falha moral por definição — mesmo quando feito de forma pontual, consciente e dentro da legalidade.

Esse moralismo seletivo não é coincidência. É estratégia.

O moralismo seletivo do varejo bancarizado

Não são só os bancos que se levantaram como novos guardiões da moral econômica. O varejo também entrou no palco — de jaleco branco e discurso ético na ponta da língua. Agora, quem financia televisão em 30 vezes com juros implícitos se diz preocupado com “os perigos do jogo online”.

A verdade é que boa parte do varejo brasileiro se transformou, ao longo dos últimos anos, em operadora de crédito disfarçada de loja. A venda do produto virou isca — o lucro está no financiamento.

Segundo o Varejo Finance Report 2025, citado por Fernando Vieira, os varejistas com operações financeiras integradas cresceram, em 2024, 9,4% em receita líquida. Já aqueles que dependem apenas da venda direta? Ficaram em 3,1%. A diferença vem de onde? Cartões private label, crediá