Governo veta apostas de beneficiários do Bolsa Família e do BPC

Governo vai bloquear apostas de beneficiários do Bolsa Família e BPC em bets. Medida do STF cria polêmica sobre paternalismo e segregação.

STF exige bloqueio de apostas com Bolsa Família e BPC

O governo federal confirmou que, até o fim de 2025, beneficiários do Bolsa Família e do Benefício de Prestação Continuada (BPC) não poderão realizar depósitos em sites de apostas esportivas e jogos online. A medida cumpre determinação do Supremo Tribunal Federal (STF), aprovada por unanimidade em 2024.

Para viabilizar a restrição, cerca de 80 operadoras licenciadas terão de consultar, via Serpro, uma base centralizada que identifica beneficiários dos dois programas. Cada cadastro e depósito passará por essa checagem, bloqueando automaticamente a movimentação. O sistema será testado em setembro, com previsão de plena operação até dezembro.

Bolsa Família e BPC: quem recebe e como funciona

O Bolsa Família atende cerca de 19,2 milhões de famílias (mais de 50 milhões de pessoas), com valor mínimo de R$ 600 e adicionais de:

R$ 50 por jovem de 7 a 18 anos;

Já o BPC, pago a 3,75 milhões de pessoas, garante um salário mínimo mensal a idosos acima de 65 anos ou pessoas com deficiência em famílias com renda per capita de até ¼ do salário mínimo.

Quanto realmente se gasta com apostas: a confusão dos números

Há um jogo de percepções em torno do tamanho do mercado. O Banco Central estimou que as apostas online movimentam R$ 20 bilhões a R$ 30 bilhões por mês. O dado foi manchete, mas, segundo o secretário de Prêmios e Apostas, Regis Dudena, essa conta é enganosa.

“Eventualmente, o dinheiro que ele depositou de novo é o mesmo dinheiro, porque ele ganhou pouco, perdeu um pouco. Então entra e sai muito mais dinheiro do que de fato é o total de dinheiro que o apostador perdeu”, afirmou.

O Ministério da Fazenda prefere outro cálculo: o total apostado menos os prêmios pagos. Isso mostra o que realmente saiu do bolso dos jogadores e ficou com as operadoras. Nesse cenário, o valor despenca: R$ 2,9 bilhões por mês, ou cerca de R$ 36 bilhões ao ano.

“O dinheiro que você ganha de prêmio é o dinheiro do apostador de qualquer forma. Então, se você pega o que é apostado menos o prêmio, é o que de fato saiu dos bolsos de todos os apostadores. Por ano, dá uns R$ 36 bilhões — não R$ 20 bilhões a R$ 30 bilhões por mês”, reforçou Dudena.

Quem é o apostador brasileiro: dados da pesquisa Globo

A Pesquisa Exclusiva Globo (maio/2025) ajuda a contextualizar:

63% dos apostadores gastam até R$ 100 por mês;

72% jogam por lazer, não como fonte principal de renda;

O perfil predominante é de classe C e trabalhadores com renda de até R$ 5.424 mensais;

Apenas 6% se enquadram no perfil “engajado” de alto risco.

Ou seja, o brasileiro médio das bets é o trabalhador comum, que deposita R$ 50, torce por um bilhete e saca R$ 80 quando acerta. Não é vilão nem investidor profissional — é consumidor de baixo ticket, em sua maioria prudente.

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