Quem cria as leis não conhece o jogo: o episódio na CPI das apostas

Senadores pedem gameplay ao vivo de Fortune Tiger na CPI e expõem despreparo técnico sobre o setor que tentam regulamentar.

Senadores pedem gameplay ao vivo de Fortune Tiger durante a CPI das Apostas — e escancaram despreparo técnico sobre o tema que estão julgando.

Na manhã desta quarta-feira (14), o influenciador Rico Melquiades foi ouvido pela CPI das Apostas, no Senado Federal. Investigado por promover plataformas não licenciadas, ele compareceu na condição de testemunha.

Durante a audiência, parlamentares pediram que ele demonstrasse o funcionamento do chamado “jogo do tigrinho”, hoje amplamente associado à divulgação de sites de jogos online por influenciadores.

Rico abriu o celular. Jogou. Ganhou R$ 120 em poucos segundos.

A relatora Soraya Thronicke (Podemos-MS) insistiu para que ele girasse de novo. Ele se recusou:

“Aí eu estou induzindo o pessoal a estar jogando. Gente, eu fiz o ganho e não quero mais jogar.”

O jogo era Fortune Tiger, da PG Soft — o slot mais promovido por influenciadores no Brasil e, provavelmente, o mais mencionado em denúncias sobre publicidade inadequada, principalmente em redes sociais.

O Senado não reconheceu o que tinha nas mãos

A cena, por si só, já seria questionável: uma audiência pública se transformando em gameplay ao vivo.

Mas o que torna o episódio mais grave é a aparente ignorância sobre isso por parte dos parlamentares.

Fortune Tiger não é qualquer jogo. Ele está no centro do debate. É o título mais citado em conteúdos com suposto saldo fictício, vídeos sem aviso de risco, e campanhas promovidas por influenciadores com milhões de seguidores.

Ou seja: é um dos objetos diretos da CPI. E mesmo assim, foi tratado como uma curiosidade qualquer, sem contexto, sem análise, sem preparo.

Não dá pra regular na CPI das Apostas o que não se entende

O Brasil tenta, neste momento, construir uma regulação para o mercado de iGaming.

O setor movimenta bilhões, envolve operadoras, afiliados, influenciadores, métodos de pagamento e plataformas do mundo todo.

Mas enquanto os senadores pedem para “ver o joguinho”, o básico segue ausente:

Nenhuma explicação técnica sobre o funcionamento do slot;

Nenhuma análise da comunicação que levou à sua popularização;

Nenhuma menção à estética, à frequência de exibição ou ao modelo de distribuição.

Eles não sabiam o que estavam vendo. E mesmo assim estão escrevendo as regras.