Cassinos e jogo do bicho em pauta: o Senado corre para legalizar o físico enquanto sufoca o digital
Cassino é progresso, bet é problema? O Senado conversa para legalizar um e sufoca o outro.
Com apoio do Planalto, PL 2234/2022 deve ser votado antes do recesso. Mas a contradição é óbvia: aposta física vira solução econômica, enquanto o mercado online é tratado como ameaça social. Qual é o critério?
“Trabalhamos para votar o PL ainda neste semestre. Ele não trata das apostas online. Cria um modelo seguro, controlado, com exigências rígidas de compliance.”— Senador Irajá (PSD-TO), relator do PL 2234/22
O Senado Federal decidiu correr com a legalização dos cassinos, bingos e jogo do bicho no Brasil. O PL 2234/2022 — em tramitação há décadas — deve ser votado em regime de urgência ainda em junho, antes do recesso parlamentar.
A articulação é liderada por Davi Alcolumbre (União-AP) e relatada por Irajá (PSD-TO), com aval explícito do Palácio do Planalto. A palavra de ordem é: aprovar.
O movimento contrasta com o tratamento dado ao setor de apostas online (as “bets”), que nas últimas semanas passou a ser alvo de aumento de impostos, propostas de nova CIDE e campanhas de restrição.
A diferença de abordagem entre os dois tipos de jogo revela uma contradição institucional e um viés político que ainda não foi assumido publicamente: o governo quer canalizar o jogo para onde tem controle direto — e transformar o resto em bode expiatório.
A promessa: arrecadação bilionária e geração de empregos
A principal justificativa apresentada pelo Senado para acelerar a legalização dos cassinos é econômica.
O PL prevê arrecadação anual de até R$ 20 bilhões em impostos e a criação de até 1 milhão de empregos, entre diretos e indiretos, por meio da instalação de resorts integrados com cassinos físicos, um por estado — com exceção dos maiores, que poderão ter até três.
O jogo do bicho, por sua vez, poderá operar sob regime de outorga do governo, ainda a ser regulamentado. Os bingos também retornariam, mediante regras específicas de licenciamento.
O discurso do relator é que se trata de uma política de turismo, investimento estrangeiro e controle social, não uma liberação irrestrita de jogo. O modelo apresentado se inspira nos moldes de Las Vegas, Macau, Lisboa e Punta del Este.
A base social: o povo quer — e o Planalto não vai atrapalhar
A legalização não encontra resistência nas pesquisas. O levantamento mais recente do DataSenado, com mais de 5 mil entrevistas, aponta que 60% da população apoia a liberação dos jogos físicos, e 75% reconhecem que a proibição atual não impede a prática ilegal.
O Planalto, que poderia travar a votação, sinalizou apoio: não há objeções formais da Casa Civil, nem da Fazenda, nem da Secretaria de Relações Institucionais.
Pelo contrário: a leitura política do governo é que o tema rende voto, traz dividendos econômicos e tira o foco da crise das bets.
A contradição: quem aposta no físico é turista, quem aposta no digital é doente?
A mesma classe política que agora corre para legalizar o jogo físico passou as últimas semanas atacando publicamente o mercado online de apostas, elevando sua carga tributária, propondo