A CPI das Bets virou refém de si mesma

Soraya Thronicke cogita acionar o STF para prorrogar a CPI das Apostas, que virou refém do jogo político que ajudou a criar.

A senadora Soraya Thronicke (Podemos-MS), relatora da CPI das Apostas, afirmou nesta semana que poderá acionar o Supremo Tribunal Federal (STF) para estender novamente o prazo da comissão, que tem encerramento previsto para 14 de junho. A informação vem da reportagem do portal Jota Info.

A fala, por si só, escancara o impasse: uma comissão criada para investigar publicidade ilegal e práticas abusivas virou refém do próprio enredo político que construiu — e agora tenta se manter viva à força.

Thronicke diz ter o apoio de 29 senadores para a nova prorrogação. O presidente do Senado, Davi Alcolumbre, já havia concedido um primeiro prolongamento de 45 dias (o prazo original era 30 de abril), mas até agora não sinalizou positivamente sobre estender novamente os trabalhos.

A relatora, por sua vez, insiste que a CPI “precisa de mais tempo para entregar um trabalho digno”.

Mas o que está em jogo aqui não é apenas tempo. É legitimidade.

A CPI das Bets virou refém de si mesma

De CPI técnica a arena moralizante

Quando foi criada, a CPI das Apostas nasceu com objetivos razoáveis: investigar o uso indevido da imagem de influenciadores na promoção de jogos ilegais, rastrear plataformas que operam sem licença e propor caminhos para a regulação responsável.

No papel, parecia promissora. Mas na prática, a CPI cedeu rapidamente ao apelo das redes sociais, ao espetáculo das convocações e à lógica do engajamento moralizante.

O ápice simbólico foi quando senadores interromperam uma sessão para jogar “tigrinho” ao vivo com o depoente. Em outro momento, Cleitinho Azevedo tirou uma selfie sorridente com Virginia Fonseca — influenciadora convocada para prestar contas justamente sobre o impacto da sua imagem em campanhas de apostas.

Em vez de ir à raiz do problema — contratos predatórios, termos abusivos, falta de fiscalização da Secretaria de Prêmios e Apostas —, a CPI preferiu mirar nos rostos populares.

Prorrogação ou prolongamento do vazio?

Ao anunciar que pode acionar o STF caso o Senado não estenda o prazo, Thronicke sinaliza algo ainda mais delicado: a judicialização da pauta como instrumento de sobrevivência política.

Não é papel do Supremo decidir sobre o calendário interno de uma CPI. Trata-se de prerrogativa do Congresso, dentro dos limites do regimento.

Forçar o Judiciário a intervir em um processo legislativo interno é acionar a instância errada por motivos errados.

Mais do que garantir a continuidade dos trabalhos, o que essa movimentação revela é a tentativa de manter uma CPI que ainda não entregou relatórios substanciais, não colheu provas definitivas e, até o momento, concentrou-se em convocar figuras midiáticas.

Lista extensa, resultados escassos

A lista de convocados para as próximas semanas inclui nomes como Gusttavo Lima, Jojo Todynho, Jon Vlogs, Tirulipa, Gkay, Wesley Safadão, Viih Tube, Deolane Bezerra e Felipe Neto. Muitos comparecerão como testemunhas, outros como investigados e alguns apenas como convidados.