A CPI das Bets desanda e Soraya sente o peso do roteiro que ajudou a escrever
Soraya diz que quer investigar lavagem de dinheiro, mas foi justamente sua CPI que virou palanque para celebridades e selfies parlamentares. Agora, sent...
A senadora Soraya Thronicke, relatora da CPI das Bets, desabafou. Em conversa relatada pela coluna de Paulo Cappelli no Metrópoles, a parlamentar afirma estar “sozinha” na condução dos trabalhos da comissão e critica a postura do presidente da CPI, senador Dr. Hiran.
Ela alega que há sabotagem deliberada para esvaziar o quórum e impedir o avanço das investigações sobre crimes de lavagem de dinheiro e estelionato.
O que Soraya parece ignorar — ou prefere esquecer — é que foi justamente a condução midiática, simbólica e politizada da CPI que abriu espaço para essa crise.
Uma comissão que começou dando palco a influenciadores, tirando selfie com celebridade investigada e transformando sessões em espetáculo digital, agora colhe o que plantou: superficialidade, desvio de foco e paralisia institucional.
A CPI desmoralizada desde a selfie
Como já destacamos no artigo "A selfie que desmoraliza a CPI", a imagem do senador Cleitinho posando ao lado de Virgínia Fonseca em plena oitiva já sintetizava o problema: uma comissão mais preocupada com o engajamento do que com os autos.
A sessão com Virgínia foi conduzida como se fosse um evento de mídia — não um momento de apuração. E mais grave: despreparada e com foco em influenciadores enquanto os responsáveis pelas plataformas continuavam ausentes.
Celebridades convocadas, operadores ignorados
Em "Jon Vlogs na CPI das Bets", analisamos a convocação do influenciador e criador da Jon.Bet. Apontado como “peça-chave” da campanha da Blaze no Brasil, Jon faltou à sessão e agora está sob ameaça de condução coercitiva.
Mas até hoje, não há convocação direta dos donos das plataformas, dos controladores financeiros, dos diretores de compliance. A CPI se especializou em mirar no influenciador — e ignorar o sistema.
E isso se repete com o caso do padre Patrick, também citado por Soraya como exemplo de perda de tempo. Ela reclama: “O padre poderia ter sido ouvido em audiência pública. A gente não precisaria usar um dia de CPI para fazer isso”.
Mas o que a relatora não diz é que ela própria reforçou o foco simbólico da comissão em suas fases iniciais. O nosso artigo "A CPI das Bets virou refém de si mesma" já alertava: ao transformar a CPI em palco de marketing moral, o inquérito perdeu sua potência como ferramenta jurídica.
Soraya sente o esvaziamento — mas foi parte dele
Agora, a senadora desabafa dizendo que está com o “prazo estourando” e que precisa ouvir “gente que está lavando dinheiro”. Reclama da ausência de quórum, da falta de compromisso dos colegas, da condução errática de Dr. Hiran, e de suposta interferência política de Ciro Nogueira.
Mas Soraya não é apenas vítima. Ela também foi roteirista dessa novela. Defendeu pautas que atraíram holofotes mas esvaziaram tecnicidade. Deu voz a influenciadores e, em alguns momentos, escolheu o caminho da manchete — não da diligência.
Seu desabafo tem razão? Tem. A CPI foi sabotada. Mas a sabotagem não veio só de fora. Veio da falta de foco estrutural desde