A autoexclusão real começa no banco
Autoexclusão sem controle de pagamento é placebo: o vício se protege bloqueando o Pix.
Em meio a tantos debates sobre Jogo Responsável, ferramentas de autoexclusão e exigências regulatórias, uma verdade incômoda continua fora da pauta oficial: nenhuma política pública de proteção ao jogador viciado vai funcionar enquanto ele puder abrir o aplicativo do banco e fazer um Pix para qualquer casa de apostas — inclusive as ilegais.
A autoexclusão, como se pratica hoje, é simbólica. E o problema não está nas boas intenções. Está na falta de alcance.
Um jogador pode se autoexcluir de uma operadora específica. Pode até, em alguns sistemas, marcar múltiplas operadoras licenciadas.
Mas nada disso impede que ele, com dois toques, faça um Pix para um cassino pirata, aberto ontem, com um CNPJ de fachada.
Autoexclusão de verdade precisa ir até o Pix
É simples: ou bloqueamos o pagamento direto no canal bancário, ou continuamos vendendo placebo para a população vulnerável.
O setor já reconhece o problema. Bancos sabem exatamente quais CNPJs estão ligados a casas de apostas, intermediadores, gateways e subadquirentes.
O Banco Central sabe. Os PSPs sabem. E, no entanto, o jogador com histórico de compulsão pode recomeçar o ciclo a qualquer momento — sem barreira técnica.
Cassino novo, cadastro novo, vício antigo
Não adianta o jogador se excluir da Casa A, se ele pode entrar na Casa B, C ou D com o mesmo CPF.
E se, porventura, houver um sistema integrado nacional (que ainda não há), nada impede que ele aposte em cassinos piratas.
E pior: esses cassinos piratas são abastecidos por CNPJs registrados como "consultoria", "logística", "marketing", "serviços gerais" — como vimos na investigação da semana passada.
Não há bloqueio de API, não há blacklist bancária, não há cruzamento ativo entre comportamento compulsivo e canais de pagamento.
A engrenagem da compulsão continua aberta, só que camuflada.
O argumento da liberdade — e da responsabilidade
Alguns dirão que bloquear o Pix é autoritário.
Que fere a liberdade individual.
Mas liberdade não é deixar o viciado se autodestruir.
Liberdade é ter controle para impedir o impulso de destruir sua conta bancária em um surto de 10 minutos.
O Brasil já bloqueia compras por Pix em jogos de azar sob ordem judicial.